sexta-feira, 6 de setembro de 2013

O capitão-mor Filgueiras


José Pereira Filgueiras, filho do português José Quezado Filgueiras Lima e da baiana Maria Pereira de Castro, nasceu na Bahia em 1758. Sua família se estabeleceu na região de Barbalha-CE onde ele casou duas vezes: com Joaquina Parente, filha do coronel de milícias Manuel Gonçalves Parente, e com Maria de Castro Caldas, em 1803.


            Segundo a Wikipédia, em 1804 tornou-se o Capitão-mor do Crato-CE, substituindo Arnau de Holanda Correia, o primeiro a ocupar a função. Residia no sítio São Pedro, herança da primeira mulher, Joaquina Parente, de quem possivelmente descendia seu filho Filgueirinha. Em 1816 o sargento-mor de Jardim, José Alexandre Correia Arnaud, lhe tomou metade da Jurisdição, criando uma capitania-mor naquela cidade após um litígio em que Filgueiras recebeu o apoio do presidente da província do Ceará,  o português Inácio de Sampaio, e Correia Arnaud o de D. João VI no Rio de Janeiro, embora não ocupasse o cargo, falecendo no retorno. Assumiu a função de capitão-mor de Jardim Pedro Tavares Muniz.
 
            No conflito com José Arnaud um dos sobrinhos de Filgueiras foi abatido por um dos capangas do primeiro. O cabo Francisco Calado prendeu Gonçalo de Oliveira Rocha, o Gonçalinho, no Cantagalo, na atual Missão Nova. O cunhado deste, Joaquim Inácio dos Santos, foi procurar o tio Filgueiras no sítio São Pedro, o grupo deste e o do Calado se encontraram e na discussão, Joaquim Inácio tentou soltar o marido da irmã, sendo abatido pelo cabo. Filgueiras reagiu acertando três inimigos. Os sobreviventes receberam apoio de José Correia Arnaud. Joana Martins do Espírito Santo, a viúva, casou com Romão Pereira Filgueiras, irmão (ou sobrinho) do Capitão-mor, que foi o avô de Romão Pereira Filgueiras Sampaio, o Coronel de Serrita e intendente de Salgueiro.

"O que tens Joaquim Inácio,
Que de dores vem mudado?"
"Meu cunhado Gonçalinho,
Foi preso pelo Calado!"
 
O Filgueiras assim que soube,
Mandou chegar seu cavalo,
E correu à rédea solta,
Em busca do Cantagalo.
 
Foi chegando e foi dizendo,
Com a sua mansidão:
"Quero meu sobrinho solto,
Que o vejo na prisão!"
 
Respondeu o cabo da tropa,
Por ser homem mau criado:
"Seu sobrinho há de ser solto,
Depois de eu morto ou picado!"
 
Respondeu Joaquim Inácio,
Com a sua opinião:
"Meu tio peça favor,
A gente a tapuiu não!"
 
Puseram uma pistola,
Nos peitos de Joaquim Inácio,
A bala entrou pela frente,
Foi sair no espinhaço!
 
O Filgueiras com esta ação,
Ficou muito estomagado,
Passou mão no bacamarte,
Pra derrubar o Calado.
 
O mulato João de Brito,
Mulato de estimação,
Nos galhos dos marmeleiros,
Lá deixou seu mandrião.
 
"O que tens José Luiz,
Que de trajes vem mudado?"
"Com um repuxo do Filgueiras,
Saí todo escangalhado!"
(Gesta do Século XIX citada  pelo padre Antônio Gomes de Araújo em "Os Arnaud no Cariri"). 

            Durante a Revolução Pernambucana de 1817, quando a elite açucareira de Recife, que contribuía com boa parte da economia brasileira da época mas pouca atenção recebia do rei D. João VI, resolveu demonstrar sua insatisfação com a corte do Rio de Janeiro, inspirado pelos ideais da Revolução Francesa de 1789 e apoiados pelos Carbonários, sociedade secreta nos moldes da maçonaria e que deu origem a Máfia Siciliana. Um jovem padre caririense, José Martiniano Pereira de Alencar, que depois largou a batina e foi o pai do escritor José de Alencar e do Barão de Exu, estudando em Recife, teve contato com os Carbonários de Pernambuco e trouxe o ideal revolucionário para o interior cearense. Com o apoio do irmão Tristão de Alencar Araripe e da mãe Bárbara de Alencar, heroína do Ceará, ele se uniu aos principais da terra, entre eles o Capitão-mor Filgueiras, que prometeu manter-se neutro, mas fez um acordo secreto com o governador Inácio de Sampaio, prendeu os revoltosos e os entregou ao amigo. Os alencares sofreram na prisão de Fortaleza e na Bahia por alguns anos até serem anistiados.
 
                Em 1822 a corte de Lisboa pressionava D. João VI que havia retornado à Europa para que o Brasil voltasse a posição de colônia, a elite carioca resistia e para não perder o controle sobre metade da América do Sul, D. Pedro I proclamou a independência. D. João procurou manter o controle sobre a porção norte da antiga colônia americana, o Grão-Pará, - que incluía a maioria dos estados da região norte - o Maranhão e o Piauí, para isto mandou o major português João José da Cunha Fidié, que se destacou na resistência ao domínio napoleônico - que fizera D. João e a corte se transferir ao Rio de Janeiro em 1808 - que recebeu apoio de boa parte dos proprietários daquela região. Outros resistiram e na batalha de Jenipapo os nordestinos lutaram bravamente mas foram massacrados pelas tropas portuguesas, pedindo ajuda a outros estados, entre eles o Ceará de onde partiram tropas lideradas por Filgueiras e Tristão Araripe, sendo o primeiro nomeado comandante das tropas que após duras escaramuças derrotaram Fidié que foi conduzido ao Rio de Janeiro e deportado para Portugal. Não há registros disso, mas é provável que os cearenses tenham se apossado das armas portuguesas.

                Com sua contribuição para a consolidação da unidade nacional, ele esperava receber um título de nobreza do Rio de Janeiro, este não veio, embora sua família tenha adquirido privilégios políticos e terras ao ficar do lado certo em 1817 e em 1822, o temperamental Filgueiras ficou frustrado e, furioso, passou a atacar o governo imperial. Recife ficou insatisfeito com os termos da nova constituição de D. Pedro I e proclamou a Confederação do Equador junto com algumas outras províncias, entre elas o Ceará. Não há consenso entre os historiadores se eles eram separatistas, queriam formar uma nova nação em alguns estados do Nordeste ou se queriam apenas protestar contra as condições a que estavam submetidos e exigir pela força mudanças estruturais. Em todo caso, a família Alencar liderou o movimento no Cariri e dessa vez o rancoroso Filgueiras, que não se dava muito bem com o governador da província nesse período, resolveu aderir. O aristocrático "governador" Tristão Alencar e o rude "general" Filgueiras, usando os canhões de Fidié, atacaram Fortaleza, que naquela época não chegava a metade da população do Cariri, saquearam e estabeleceram um governo revolucionário até que o movimento foi debelado por tropas imperiais em Recife e Fortaleza atacada por mar. Os confederados resolveram interiorizar a resistência, Filgueiras retornou ao Cariri e Frei Caneca partiu em direção ao Sertão. Tristão foi capturado, morto, teve o cadáver apedrejado e esquartejado por tropas leais ao império e Filgueiras foi detido na fronteira com Pernambuco, levado ao Rio de Janeiro mas escapuliu nas proximidades de São Romão, na Bahia fugindo com um filho para as Minas Gerais onde fundou o Sítio Perdigão.

                Na versão da família cearense, ele teria seria tão orgulhoso que ficara deprimido e recusara qualquer alimento, morrendo de inanição. O Diário Oficial, por sua vez, relata que ele morrera de Febre Palustre. No entanto, a família Filgueiras de Minas alega que ele sobreviveu e constituiu família e que Francisco Campos, ministro da educação da Era Vargas seria seu bisneto.

                Seu filho Filgueirinha lutou contra a Revolta de Pinto Madeira, a "Guerra dos Cacetes", que como a Confederação do Equador foi um desastre para os negócios do clã.  As forças pintistas esmagaram em 1832 uma expedição liderada por Antônio Vieira do Lago Cavalcante e Albuquerque, um irmão deste, José Cavalcante e Filgueirinha fugiram do "Desastre da Barbalha" mas foram alcançados e executados em Pavão, seus corpos foram atirados no rio Salgado que estava em cheia histórica.

                  As filhas de Filgueiras, entre elas Mafalda, receberam da justiça uma pensão do estado pela morte do pai, o velho capitão, nas mãos do estado.

                   Marcos Filgueira e o Pe. Antônio Gomes de Araújo acreditam que a família Filgueira Sampaio de Salgueiro, Serrita e Barbalha descende de Romão Pereira Filgueiras. No entanto a tradição dos descendentes de Antônio Correia Sampaio Filgueiras, o Totonho Filgueiras, pai de Luiz Filgueiras e sogro de Argemiro Sampaio, e Menandro Pereira Filgueiras descendem do Filgueirinha. Neste caso, Totonho seria primo em terceiro ou quarto grau do Cel. Romão e não irmão como na outra hipótese.

                   A Família Filgueiras entrou em decadência depois dos fracassos em 1824 e 1832, embora ainda constem entre os maiores proprietários rurais em 1850. Outras famílias como a Grangeiro, Coelho, Alencar, Barreto, Correia, Parente, Pereira e Sampaio. Esta se destacou com a fundação da Casa Sampaio, de cuja família descende o governador de Pernambuco, Cid Sampaio Feijó e Leão Sampaio, e se uniu às outras já citadas principalmente os Sá Barretos e os Filgueiras que gozavam de maior prestígio político dando origem aos Romãos de Serrita e os Totonhos de Barbalha.

                  Sobre a personalidade de Filgueiras, está envolta em lendas. É descrito como um homem corpulento de grande força física e moral. Tinha três bacamartes, "Boca da Noite", "Meia Noite", e "Estrela D'Álva", um deles teria mais de meia arroba. Conta-se que "matava um touro com um murro, tinha um canhão por bacamarte e subia em um tronco de gameleira com o cavalo preso entre as suas pernas". É descrito como um homem suave. Estrategista militar notável, destacou-se no cenário regional embora tenha sido deixado de lado da história por ter vivido em uma região periférica e por ter ficado do lado perdedor na Confederação do Equador. Outra característica marcante era o caráter duvidoso com que mudava de lado, enganava compadres e amigos como Bárbara e Tristão Alencar em 1817, se uniu a ambos em 1822 e 1824. Nas duas primeiras vezes esteve ao lado da monarquia e na terceira contra ela. Sempre seguia seus próprios interesses e sendo um homem rude e oportunista nunca um idealista ou intelectual como seus compadres Alencares.
             
            Outra característica descrita é a sua ligação com bandoleiros, envolvimento em conflitos com outros grandes fazendeiros e a fama de bruxo, com o corpo fechado que o defendia de ataques dos inimigos e da justiça. O mesmo poder era atribuído ao sobrinho-neto Cel. Chico Romão de Serrita que se encantaria em forma de tocos, animais ou fumaça quando perseguido.
 

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Apresentação
O autor deste blog, menino pobre de família tradicional, passou a infância escutando o avô e os tios contarem estórias de um passado glorioso em que a família gozara de prestígio social e econômico. Este passado, contado em fantásticas narrativas, levou-o a amar a história, gostar de assistir a filmes épicos e se apaixonar pela disciplina após ganhar "A história do mundo para crianças" de Monteiro Lobato aos dez anos. Leu o "Adolf Hitler" de John Toland, que seu tio Antônio Taumaturgo tinha como livro de cabeceira.   Decidiu cursar história na FACHUSC de Salgueiro, sem se identificar com a história social, embora sempre fosse um dos melhores alunos preferia o prazer das aventuras do passado ao  pensamento de Karl Marx.
 
Decidido a recontar as estórias que guardou das conversas com seus antepassados, decidiu publicá-las agora enriquecidas com pesquisas históricas, genealógicas e muita imaginação. Não é objetivo deste blog ser fiel a realidade utilizando métodos das ciências sociais, pouco importa se o que está sendo contado é verdade ou não - este é o espaço dos trabalhos acadêmicos - seu objetivo é divertir o leitor relatando um passado romantizado, épico. Muito do que os antigos contavam curiosamente foi confirmado por relatos de pesquisadores e documentos históricos.